Migrantes são premiados em festival de música e poesia organizado pelo CAMI

O Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) organizou o 7º Festival de Música e Poesia do Migrante cujo tema foi: “Um grito pela Liberdade – Pelo fim da Invisibilidade dos Imigrantes”, realizado no domingo, dia 26/08, durante o período da tarde, na Praça Kantuta, espaço histórico da comunidade latino-americana em São Paulo.

O festival visou premiar e dar voz aos artistas populares imigrantes que muitas vezes, não têm oportunidades de expressar e manifestar seu talento e fomentar pessoas que possam, com seu canto e poesia e arte, ser uma fonte de animação das comunidades, fortalecendo a luta por direitos e cidadania.

Participantes do 7º Festival de Música e Poesia recebem seus certificados.
Crédito: Divulgação/CAMI

Ao longo do dia, mesmo com o forte frio e a fina garoa, mais de 600 pessoas participaram do evento. Eram pessoas oriundas da América do Sul, África, alguns da Ásia e brasileiros que apreciaram a riqueza cultural e artística que se expressava naquele espaço. Grupos folclóricos e cantores fizeram participações especiais, destaca-se o grupo boliviano Salay, a cantora Celina de El Salvador, o grupo africano Projeto Mundo e a União Nacional Dança de Leão & Dragão.

Entre os inscritos no Festival, 23 imigrantes e refugiados comporam músicas ou poesias inéditas e apresentaram para todos os presentes. Em muitas das músicas e poesias, falavam da condição de ser migrante, da consolidação de seus direitos no Brasil e da luta contra o trabalho escravo, tráfico de pessoas, igualdade de gênero e fim da discriminação e xenofobia. Um júri composto por 4 imigrantes das seguintes nacionalidades: Angola, El Salvador, Peru e Bolívia, avaliaram os cantos e poesias elaborados pelos participantes.

“É a primeira vez que participo e considero importante conhecermos os outros cantores”, disse o migrante africano Eddy, cantor da República de Gana que fez uma participação especial com seu grupo, composto de ganeses e senegaleses.

Praça Kantuta recebeu grande público para o Festival, apesar da tarde fria.
Crédito: Divulgação/CAMI

Para Abdull, migrante do Iêmen, (país árabe localizado no continente asiático) recém chegado ao Brasil, foi ao evento com um amigo da Mauritânia, comentava em árabe da festividade e de se aproximar de outras nacionalidades, “É uma grande festa, com isso escuto e aprendo um pouco a língua daqui. Estou contente de ver os grupos, consigo esquecer um pouco a situação política do meu país de origem que está muito complicada”, declarava.

Ao final, a questão da diversidade de gênero foi um tema central nesta etapa, concretizando-se na premiação de melhor poesia para ativista e transformista Florência, interpretada pelo boliviano Remberto Suárez Roca, cuja letra impactante abordava a questão da sua trajetória como migrante da Bolívia para o Brasil, as situações enfrentadas e a luta por justiça social – leia abaixo trecho da poesia declamada por Florência:

“Basta de explotarme!
Basta de humillarme!
De discriminarme! Reclame!
Donde están mis documentos?
Porque no me aceptan?
Porque no me respetan?
O será que es por mi gênero?…
Muchas mujeres son muertas aqui em Brasil por feminicidio!
Son Matratadas! Traficadas! Com crueldad!…
Como artista e transformista quiero dar um grito de visibilidad
que gracias ahora aqui mi ¡transformidad!
Quiero dar amor e alegria y paz para toda mi comunidad”, declarava uma parte de sua poesia.

Na categoria música, a vencedora foi a chilena, Renata Fernanda Espoz Jerez, que abordou o tema de um mundo livre sem fronteiras, conforme o seguinte trecho:

“Vamos a conversar sobre las fronteras
Tu vives ala…yo vivo aca
Pero yo no naci aqui
Mis raíces estan cruzando la frontera, lejos de aqui
Yo quiero tener la liberdad de poder ama, donde yo quiera estar…”

“Mais importante do que o prêmio é a celebração dos diversos grupos, nacionalidades e como podem se organizar juntos na busca por seus direitos no país”, reforçou o coordenador do CAMI, Roque Patussi, antes da premiação, em círculo de mãos dadas com todos os participantes.

Participantes do Festival ficam de mãos dadas ao final do evento, antes do anúncio dos premiados.
Crédito: Divulgação/CAMI